
Quando li a primeira leitura deste domingo (Isaías 5,1-7), já estava pronto para ler seu cumprimento natural: a repetição dela por Jesus em Mateus 21,33-45. A parábola de Jesus é inequívoca e, se possível, ainda mais dramática do que a de Isaías. Pertencer ou entrar no Reino de Deus não depende de pré-requisitos étnicos, morais ou espirituais; da adesão a dogmas ou de definições mais ou menos corretas do mistério de Deus. Nada disso. Simples e radicalmente: “Eu vos digo: o Reino de Deus vos será tirado e será dado a um povo que produza os seus frutos”. A adesão confiante à prática de Jesus nos integra à Sua maneira de vivenciar os relacionamentos com o Pai e com nossos irmãos e irmãs. Este é o Reino de Deus e esta é a Salvação!
Infelizmente, uma certa leitura ingênua dessas parábolas levou a algumas simplificações ao longo dos séculos. Não menos importante é a ideia velada de que Jesus proclamou essa parábola para seus contemporâneos, para os judeus de seu tempo, que não queriam acolhê-lo. Seriam aqueles viticultores perversos que se apoderaram da vinha em vez de torná-la frutífera. Consequentemente, seríamos os novos agricultores da vinha, porque cremos nEle.
Em vez disso, desta vez o liturgista, com uma escolha nada menos que certeira, nos oferece como Evangelho esta pequena parábola (Mt 21,28-32), que Mateus coloca exatamente antes daquela dos viticultores infiéis. Isso, que pode parecer um mero “jogo litúrgico”, na verdade destaca, sem sombra de dúvida, que nada nem ninguém pode nos livrar da responsabilidade pessoal de buscar sinceramente como viver e encarnar a vida de Jesus de Nazaré hoje. Como em todos os empreendimentos humanos, mesmo neste nível, a pergunta é absolutamente legítima: “O que devo realmente fazer? Como devo me comportar para ser como Jesus nesta situação?” Essa indagação profundamente humana é também sinal de uma Fé sincera, que busca humildemente colocar em prática o que YHWH nos pede por meio do profeta Isaías: “Ele esperava justiça, mas eis derramamento de sangue; esperava justiça, mas eis clamores dos oprimidos.”
Na parábola do Evangelho, porém, Jesus deixa claro, de antemão e de forma inequívoca, que ninguém deve se iludir acreditando que pode obter a Salvação seduzindo o Pai com belas palavras (não aqueles que dizem: ‘Senhor, Senhor…’). E aqui, para além da declaração individual de Jesus, é hora de trazer à luz a ambiguidade da linguagem humana, que pode expressar a realidade e nos permitir comunicar, assim como pode escondê-la, bajulando, seduzindo, manipulando, distraindo, etc.
No caso da linguagem religiosa, é emblemática a condenação de Jesus ao absurdo religioso (quando orardes, não multipliqueis as palavras como fazem os pagãos…), que, por trás das glórias e títulos dirigidos a Deus, esconde uma tentativa de capturar a Sua benevolência, de atraí-Lo para o nosso lado e conquistá-Lo, independentemente da nossa própria conduta.
Ainda mais radicalmente, esta oração pagã, tão cara a muitos batizados, ilude-se ao pensar que pode obter a bênção divina sem passar pela mediação de um irmão ou irmã. Mas a única adoração verdadeira que Jesus nos pede é reconhecê-Lo e servi-Lo nos nossos irmãos e irmãs, a começar pelos mais pobres e oprimidos.
Esta é a vontade do Pai, este é o Evangelho de Jesus de Nazaré, e esta é a diferença entre o filho obediente e aquele que se ilude ignorando a vontade do Pai.
Pe. Marco
