
Esta semana, minha reflexão será mais um desabafo do que uma reflexão propriamente dita. De fato, o tema, que ressurgiu após meditar sobre as leituras deste domingo (1 Reis 8,15-30; 1 Coríntios 3,10-17; Marcos 12,41-44), é um que permeia toda a minha vida de Fé e para o qual ainda não encontrei uma solução satisfatória. A questão subjacente, que alimenta minhas dúvidas e que também gostaria de propor para suas reflexões, é esta: o que as grandes catedrais têm a ver com a Fé cristã, com a proclamação do Evangelho? Ou talvez melhor: por que conseguimos mobilizar tantos recursos humanos e financeiros para construir tais monumentos, mas não conseguimos nos mobilizar com o mesmo radicalismo e paixão, para transformar o mundo e a sociedade segundo o Evangelho?
De fato, a verdadeira questão é a segunda, visto que a primeira poderia dar a impressão de uma visão maniqueísta e ignorar: 1) a boa-fé daqueles que contribuíram nos mais diversos níveis; 2) o inegável valor artístico dessas obras; 3) as infinitas referências religiosas contidas nesses templos.
Embora esteja claramente ciente dessas últimas considerações, a dúvida subjacente à minha segunda pergunta permanece: ou seja, dada a originalidade absoluta desses monumentos, o contraste, entre tal originalidade e beleza e a pobreza social, bem como a injustiça estrutural, das sociedades que os produziram e daquelas que os preservaram, é particularmente gritante.
Normalmente, quando confrontado com essas minhas preocupações, ouço a resposta apaziguadora de que ambas deviam ser abordadas simultaneamente. Sim, talvez, mas… minha pergunta permanece, visto que mesmo a criação das grandes obras religiosas implicou um sacrifício considerável, especialmente para os menos favorecidos, que não queriam ser excluídos dessa “liturgia arquitetônica” para dar glória a Deus.
Talvez seja precisamente nesse detalhe, ou seja no desejo de dar glória a Deus, o satan, o tentador, tenha se insinuado e continue a se insinuar. Com sua luz ofuscante (Lúcifer), ele desvia a atenção da verdadeira Luz, em vez de se opor a ela. De fato, seria interessante aprofundar essas questões, comparando-as com o declínio paralelo da Liturgia, que, de Memorial da vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré, foi transformada em um procedimento solene, incompreensível e auto referencial, que pretende glorificar a Deus.
Nesse sentido, a crítica da Fraternidade São Pio X, ao rejeitar o Concílio Vaticano II por questionar séculos de liturgia, merece atenção. Em última análise, era preciso explicar a eles por que, após séculos dessa maneira de celebrar, o Vaticano II a questionou repentinamente e buscou restaurar na Liturgia Eucarística à sua dimensão original, a de Memorial da vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. E a razão para essa metanoia, ou conversão, é simples: nos afastamos demais do Evangelho!
Retornando à nossa reflexão, não é coincidência que o que considero o ápice da arte cristã, o gótico, coincida aproximadamente com o momento do desapego da Liturgia à sua estrutura memorial judaica. Na realidade, o distanciamento litúrgico já havia ocorrido alguns séculos antes…
E assim aconteceu que, inconscientemente, mas inexoravelmente, a Igreja Católica Romana, agora estabelecida como uma potência imperial universal, teve que envolver seus fiéis nessas grandes obras de glorificação daquele Deus, do qual ela era o baluarte e testemunha.
Dessa forma, das catedrais à liturgia, da música sacra à pintura, até a disputa com o poder imperial, a hierarquia eclesiástica guiou a Fé do Povo de Deus nessa gigantesca obra de glorificação de Deus. Com o resultado paradoxal de que, até mesmo viúvas semelhantes às do Evangelho, em vez de serem destinatárias da Caridade cristã evangélica, foram despojadas do pouco que possuíam, para também glorificar a Deus com suas ofertas.
Mas em toda essa involução histórica, a Igreja gradualmente se esqueceu do que São Paulo nos disse: “Vocês não sabem que são o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus, que vocês são, é sagrado”, o que, retomado por Santo Irineu: “A glória de Deus é o homem vivo”, indicava de forma simples e inexorável para onde direcionar e atrair todos os esforços e sacrifícios do Povo de Deus: na realização da fraternidade, pedra angular do Reino de Deus, mas muito distante da maioria das sociedades humanas criadas até agora sobra a Terra, a começar daquela societas christiana ainda almejada e sonhada por muitos.
E assim, sem ceder a qualquer tentação iconoclasta e bem ciente de que o Povo de Deus também precisa de estruturas físicas para cumprir sua missão, aceitamos como Graça a necessidade de renunciar a muito do que foi produzido no passado, mas que talvez não tivesse como propósito primordial o crescimento do Reino de Deus entre nós…
Pe. Marcos
