
As emoções fortes e avassaladoras destes dias, juntamente com a tumultuada sobreposição de eventos, me impedem de propor minha própria leitura do pontificado do Papa Francisco. Além disso, todos nós somos inundados por rios de homenagens e palavras, com o risco inevitável de obscurecer o carácter requintadamente evangélico do seu testemunho.
Ao contrário, penso que é um sinal claro do Espírito ouvir de novo a narração de Lucas na primeira leitura deste domingo “in albis depositis”, segundo a tradição milenar da Igreja.
O texto que nos é proposto é a continuação do cuidado do paralítico, restabelecido por Pedro em nome de Jesus de Nazaré. O problema para a elite religiosa judaica não está no cuidado desse homem, mas no nome Daquele que foi curado: Jesus, o Nazareno! Mas aquele homem foi crucificado e sepultado: por que continuamos a falar dele? Por que se lembrar disso?
É o que acontecerá a partir de segunda-feira com o Papa Francisco. Muitos dos meus colegas, e ainda mais, tentarão apagar este nome inconveniente, com base no princípio segundo o qual “morre um Papa e outro é feito”. Então, por que alimentar a memória subversiva desse profeta contemporâneo? O cardeal Müller já pediu aos quatro ventos que Francisco seja enterrado em paz e vire a página… Também porque a grande massa, substancialmente alheia aos labirintos eclesiásticos, puxará Francisco para todos os lugares. Cada um citará fatos e palavras, tirados do contexto, para inventar inúmeros evangelhos à sua própria imagem e semelhança. O triste destino de todos os profetas: admirados por todos, quando não podem mais falar e agir…
Mas Pedro, o primeiro e maior traidor de Jesus junto com seus irmãos na fé, nos lembra algumas “joias” que acho precioso lembrar.
O primeiro é o grande princípio que animou os cristãos, os verdadeiros, de todas as latitudes e de todas as épocas: “Devemos obedecer a Deus diante dos homens!” Jesus fê-lo antes de tudo, escolhendo ser radicalmente fiel ao Pai e ao seu Evangelho do Reino. O Papa Francisco fez isso, apesar de algumas contradições, que os doutores em direito canônico já estão ventilando, precisamente para começar a demolir sua memória. Mas os anawim, os pobres do Espírito, “el Pueblo de Dios creyente” para dizê-lo nas palavras de Francisco, bem eles sabem que essas “contradições” nada mais são do que a tentativa de dobrar as leis, mesmo as do Direito Canônico, rigorosamente feitas por aqueles que detêm o poder, para dobrá-las à Sinodalidade e à Fraternidade, os dois grandes princípios evangélicos de seu pontificado.
Em um mundo, tanto secular quanto eclesiástico, em que as desigualdades e discriminações se tornaram leis, ou estruturas de pecado, a mudança e a ruptura do mesmo só podem ocorrer com “golpes de estado”, subvertendo essas mesmas leis/estruturas. Mas, como foi para Jesus, assim será para este seu fiel discípulo: os doutores da Lei, de modo indolor e com sofismas legalistas, tentarão desmantelar as consequências concretas das suas escolhas mais proféticas.
Por isso, há algum tempo rezo pelo seu sucessor e agora gostaria de vos convidar a fazer o mesmo. Sabendo bem que «o Espírito sopra onde quer e não sabeis de onde vem e para onde vai», ou seja, vai muito além dos nossos cálculos, a responsabilidade a que todos somos chamados como discípulos de Jesus é colocar-nos diante deste homem do Espírito, como os Apóstolos depois da Ressurreição. O encontro com o Senhor ressuscitado foi antes de tudo uma consciência da sua inadequação e infidelidade. Eles foram os primeiros a achar difícil segui-lo, porque estavam muito preocupados com as opiniões dos homens, especialmente aqueles que contam e fazem valer seu poder. Essa preocupação os levou a trair o Mestre quando Ele estava com eles. Mas desta infidelidade, aceite e perdoada pelo Ressuscitado, brotou o firme propósito de «obedecer a Deus diante dos homens».
Da mesma forma, a memória autêntica do Papa Francisco pode acontecer, reconhecendo que, em maior ou menor grau, todos nós o “traímos” até certo ponto, limitando-nos a uma admiração extática por ele, sem, no entanto, nos comprometermos a alcançar aquelas transformações da Igreja e da sociedade, que ele nos indicou. Se assumirmos honestamente esta nossa infidelidade, a misericórdia do Pai transformá-la-á num memorial para Ele, fiel ao Evangelho antes de ser fiel aos homens.
Por outro lado, não seremos muito diferentes daqueles que, que correram para o seu funeral sem nenhum arrependimento, expressaram falsas condolências, enquanto em seus corações estão pensando em como apagar sua memória…
Pe. Marcos
