Tomo esta pergunta, sobre a qual se estrutura um belo poema recebido nestes dias, para contrastar a grande tentação de permanecer em silêncio, de não proferir uma palavra, neste enésimo dramático Natal. Mas o drama, o sofrimento para mim, não está sobretudo nas muitas tragédias que nos rodeiam, mas na resposta dada pela minha amiga a esta pergunta: “Mas a criança sagrada nasce no presépio como todos os anos?” Sim, este ídolo, totalmente alheio a Jesus de Nazaré, nascerá dentro de celebrações deliberadamente vazias e fora da história, que, para despertar emoção e sentimentos piedosos, devem fugir da realidade e alimentar aquele clima sentimental que abafa estes dias.
Sim, essa droga espiritual é o que sempre arruinou meus Natais por não poder combatê-la abertamente. Não só isso, mas muitos dos que irão ler essas reflexões, suportarão com fadiga a leitura, descartando-a na esfera do pessimismo derrotista habitual, ou dissolverão toda contradição no escandaloso: “Mas Jesus nasceu de qualquer maneira. Então, pelo menos hoje temos que deixar de lado os males do mundo, comemorar, curtir o nosso sonho de Natal!”.
E assim, quase sobrecarregado por esta imensa tarefa, peço mais uma vez ajuda a um companheiro de viagem que, como poucos, soube subir à Cruz com Jesus, para poder participar na sua Ressurreição: Dietrich Bonhoeffer. Em 17 de dezembro de 1943, ele escreveu a seus pais da prisão de Tegel, em Berlim: “Acima de tudo, uma coisa: vocês não devem pensar que eu vou me deixar desanimar por este Natal na solidão… Olhando de um ponto de vista cristão, não pode ser um problema particular passar um Natal numa cela de prisão. Muitos nesta casa provavelmente celebrarão um Natal mais rico em significado e mais autêntico, que nas casas onde desta Festa é preservado só o nome. Um prisioneiro entende melhor do que ninguém que a miséria, o sofrimento, a pobreza, a solidão, o desamparo e a culpa têm um significado totalmente diferente aos olhos de Deus, do que no julgamento dos homens; que Deus volta o seu olhar para aqueles de quem os homens estão acostumados a afastá-lo; que Cristo nasceu num estábulo, porque não conseguiu encontrar lugar na hospedaria; tudo isso é realmente uma boa notícia para um prisioneiro.”.
Para os esquecidos, gostaria de lembrar que os carcereiros de Bonhoeffer usavam em seus cinturões a inscrição: Gott mit uns! e a Igreja Luterana há muito condenava este Pastor como inconveniente demais, a ponto de forçá-lo a fundar a Igreja Confessante.
Ao grito de “deus, pátria e família”, a mesma ideologia que enforcou Bonhoeffer está se espalhando assustadoramente não só na Europa, mas em todo o Planeta. O bom Milei na Argentina disse que ganhou graças a “las fuerzas del cielo”. Por isso, ele, como todos os seus pares, sente-se autorizado a promulgar programas econômicos “de sangue e lágrimas” pelos pobres, porque um demônio disfarçado de deus lhe confiou esse mandato.
Como muito bem nos ensina São Paulo, os conflitos gerados pela opressão e pela injustiça não devem ser reduzidos ao nível de “carne e osso”; ou seja, não são simples contrastes, ou divergências, entre seres humanos. Na verdade, o que experimentamos no Tempo e no Espaço é a manifestação de Poderes e Potências espirituais, contrários ao Senhor Jesus e ao Seu Reino.
Quando o Logos, a Palavra que fala a lógica do Pai, se torna carne e sangue, gera conflitos e tensões. Ela mesma, o Verbo-Jesus de Nazaré, deve nascer fora da vida da cidade, fora da vida que conta para nós humanos e na qual baseamos todas as nossas ilusões. Como nos lembrou Bonhoeffer, em todos os momentos da história a Palavra do Pai pede para encarnar-se em nossas histórias; mas é sempre rejeitado nos Pobres Cristos de hoje. Se a Palavra de Deus, que lemos e ouvimos nas liturgias, não é aceita em suas encarnações cotidianas, ela nada mais é do que um texto histórico-literário. 
São inúmeros os exemplos que cada um de nós poderia contar. Gostaria de compartilhar um, que me impressionou muito nestes dias.
Eu estava em uma reunião do Comitê “Nós todos migrantes” da província de Lecco. Estamos lutando para dar voz aos milhares de sem-casa migrantes e italianos, que não têm mais acesso a um lar digno de nossa rica província. Para a ocasião, tínhamos convidado o Secretário aos Serviços Sociais do Município de Lecco, para nos explicar as estratégias implementadas por este Município, exemplar na sua atenção ao problema.
Depois de mais de uma hora de apresentação, detalhada e apaixonada, após as perguntas dos italianos das várias associações presentes, um rapaz nigeriano, com uma simplicidade desarmante, pede ao Secretário um lugar para morar; ele tem todos os documentos em ordem e um contrato de trabalho permanente. O Secretário gentilmente deixa claro que não está ali para disponibilizar apartamentos. Logo em seguida, como se nada tivesse acontecido, outro conta ter perdido a casa, porque foi despejado. Na verdade, seu apartamento de dois quartos se tornará um apartamento para turistas, para esta cidade suspensa entre o lago e as montanhas. Um terceiro conta o que lhe disseram, quando apresentou o pedido para uma casa popular: “Não adianta você apresentar a candidatura, se você é solteiro. Os apartamentos são grandes e a competição atribui uma pontuação mais alta a famílias numerosas, ou com deficiências particulares”. Na verdade o infeliz há cinco anos está tentando, de todas as formas, reunir-se com a sua mulher e os seus três filhos que permaneceram na África.
Assim, no desespero geral da distância entre nossas leis injustas e a vida real dos filhos de Deus, o encontro se dissolveu na confusão e no desespero ao mesmo tempo.
Para Jesus continua sendo difícil ser aceito no centro de nossas vidas e de nossas cidades. É melhor que você procure uma casa “em outro lugar”. Algum santo dará…
Nós temos que cuidar da magia do nosso natal!
 
pe Marcos