
Esta pequena provocação é mais uma inquietação expressa em voz alta, do que uma reflexão no sentido estrito. Muitos de vocês encontrarão em meus escritos estas ideias e perguntas que ocasionalmente levanto. Por isso, poderia me apresentar de diferentes maneiras. Desta vez, começarei com um livro que parece ser muito bom, mas que ainda não tive a oportunidade de ler. Trata-se de:
E. Bondi e C. Ramacciotti, Il maschio fragile. Perché le nuove generazioni sono così vulnerabili (O masculino frágil. Porque as novas gerações são tão vulneráveis). Mondadori.
Tomei conhecimento deste livro enquanto ouvia rádio no carro e uma jornalista entrevistava uma das autoras no Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher. Essa entrevista provavelmente não teria me chamado a atenção, se a jornalista não tivesse atrapalhado a conversa, interpelando a própria autora: “Com licença, professora, mas eu não gostaria que essas suas interpretações chegassem a justificar os feminicídios!” Após repetidas tentativas da professora de demonstrar o profundo significado de seu trabalho — estudar e analisar as fragilidades e fraquezas atuais do código masculino — ela acabou cedendo à agenda da jornalista: buscar a solução mágica para o problema da violência física masculina contra as mulheres. Sim, porque a violência física de alguns homens tornou-se sinônimo e paradigmática de toda a relação entre o masculino e o feminino. Portanto, na maioria dos debates públicos, o foco é sempre e exclusivamente na violência física masculina contra as mulheres.
Citei este exemplo emblemático para destacar a questão seguinte: a atitude da jornalista não é também uma forma de violência? Especialmente contra uma mulher, que não parece pensar como a Ministra Roccella (Ministra pela paridade de gênero).
Infelizmente, em minha opinião, em relação a esse fenômeno dramático — a violência física de alguns homens contra as mulheres — estamos procedendo insensatamente de acordo com a lógica do capitalismo maduro: visando freneticamente os frutos, os efeitos negativos, sem querer nos deparar com as raízes dos problemas, as causas profundas que os geram.
Assim, gangues infantis são combatidas com repressão e prisões juvenis; certas doenças endêmicas do Vale do Pó são tratadas apenas com medicamentos sofisticados, sem abordar os níveis extremamente altos de poluição; ou, mais simplesmente, o aumento de doenças em fruticulturas é combatido apenas com pesticidas novos e mais tóxicos, em vez de investigar as causas dessas doenças.
Voltando ao nosso tema principal, enquanto a violência de gênero continuar sendo reduzida à violência física de alguns homens, que pode até levar ao feminicídio, não superaremos o problema. De fato, pelo que vemos, quanto mais legislamos e regulamentamos o assunto, mais a violência aumenta. Chegamos ao ponto em que, para ter relações sexuais, é preciso assinar uma declaração de consentimento informado e atual (sic)…
Desde o alvorecer da humanidade, Eros e Thânatos (Amor e Morte na língua grega) sempre dormiram na mesma cama. E continuarão a fazê-lo até o fim dos tempos… A evolução e o desenvolvimento das civilizações estão intimamente ligados à gestão e à regulamentação dessas duas dimensões: Amor e Morte. Sem dúvida, nossa cultura, durante séculos, lidou com o conflito Amor/Morte na relação homem/mulher apoiando-se nas estruturas autoritárias do patriarcado.
Com a eliminação desse instrumento de controle e dominação, Eros e Thânatos ficaram livres para se manifestarem à vontade. Não é coincidência que, há algumas décadas, também estejamos falando de uma sociedade da gratificação instantânea.
No entanto, tudo isso não pode ser abordado focando apenas nos efeitos finais e dramáticos da crise atual: os feminicídios.
Se a relação homem/mulher não for analisada em todos os seus aspectos, dentro de um debate livre e não ideológico, não será possível desvendar as sementes de Thânatos/Morte, que a ameaçam continuamente. E não apenas com a violência física…
pe. Marcos
