
Esta semana, gostaria de me concentrar com vocês na passagem dos Atos dos Apóstolos, que é oferecida como primeira leitura da nossa Liturgia dominical (Atos 10,1-5.24.34-36.44-48a). Esta passagem, que instintivamente quis chamar de famosa, na verdade não o é, por causa da considerável ignorância do seu conteúdo subjacente.
Para partilhar as premissas que deram origem a esta reflexão, gostaria de destacar algumas frases que, infelizmente, ainda são muito, muito comuns entre nós, católicos. A mais popular é “o nosso Deus e o deus deles”, frequentemente proferida em polémicas contra os muçulmanos; ou “mas eles creem em Jesus Cristo”, quando estamos lidando com algum pentecostal; como se bastasse dizer magicamente as palavras “Jesus Cristo” e “Filho de Deus” e tudo estivesse resolvido. É uma pena que a ignorância, ou preguiça, do católico médio esqueça os conflitos, até mesmo as guerras, que os cristãos travaram entre si por causa dessas poucas palavras…
Embora fórmulas e dogmas sejam necessários para esclarecer conflitos, ou erros dentro da Fé, a passagem de Atos nos diz que a verdadeira questão, a da Salvação, se desenrola em outros níveis. Ora, se um cristão deseja ser um verdadeiro discípulo de Jesus de Nazaré, ele não pode ignorar a luz que lhe é dada pela Palavra de Deus. Qualquer outra consideração deve sempre ser tratada com cautela, se não abandonada por completo.
E o segundo versículo da passagem já é desarmante: “Ele era devoto e temente a Deus, juntamente com toda a sua família. Dava generosamente ao povo e orava continuamente a Deus”. O que esse versículo nos diz essencialmente? Que alguém pode ser temente a Deus sem necessariamente ser cristão (Cornélio é até mesmo um soldado em um exército opressor…). Mas o ponto crucial é que Lucas não faz nenhuma menção a “seu deus”, em oposição ao Deus de Jesus Cristo. Felizmente, Deus simplesmente é, independentemente de nossas representações e de como o imaginamos.
Se, portanto, Deus é e não muda, o primeiro exercício linguístico que um cristão deve empreender é simplesmente usar o termo Deus, ou melhor ainda, Trindade, sem qualquer pronome adicional, para indicar esse Mistério insondável, essencialmente além de nossa experiência terrena, que deu origem e é o fundamento de tudo o que existe.
O fato de Ele decidir revelar-se no mundo, como e quando Lhe apraz, é simplesmente o fruto de Sua Liberdade absoluta, que não depende de nossos medos e mentes estreitas. Em outras palavras, reconhecer e crer que a Trindade se revela da maneira mais elevada possível em Jesus de Nazaré não impede, nem proíbe, que a mesma Trindade nos fale e se revele, ainda que parcialmente, por meio de Maomé, Buda, Zaratustra, Platão ou qualquer outra tradição religiosa. De fato, os Padres da Igreja, incluindo São Justino Mártir, falavam de “Logoi spermatikoi” (as sementes da Palavra), para expressar como a Palavra, a Palavra de Deus, nos fala mesmo através de sementes parciais espalhadas por toda a Criação, especialmente nas reflexões dos sábios que apareceram na Terra. A este respeito, gostaria de citar alguns breves trechos da Apologia de São Justino, escrita na primeira metade do século II d.C.:
“Sou cristão e confesso que me orgulho disso e me esforço com todas as minhas forças, para ser reconhecido como tal, não porque as doutrinas de Platão sejam estranhas às de Cristo, mas porque não são inteiramente semelhantes, como as de outros, os estoicos, poetas e escritores. Cada um deles, de fato, foi capaz de formular alguma teoria corretamente, contemplando aquela parte do Logos seminal divino que é inata; mas esses mesmos homens, tendo sustentado doutrinas que se contradizem em questões mais importantes, demonstram claramente que não possuem ciência infalível e conhecimento irrefutável. Portanto, tudo o que foi corretamente expresso por cada um deles pertence a nós, cristãos: pois nós, depois de Deus, que é ingerido e inefável, adoramos e amamos o Logos gerado por Deus, visto que Ele se fez homem por nós, para nos salvar de nossas misérias, das quais Ele se fez participante. Todos os escritores, de fato, por meio da semente inata do Logos presente neles, foram capazes de contemplar a realidade de forma imprecisa. Uma coisa é a semente, a imitação, concedida aos homens na medida do possível, e outra é o próprio sujeito do qual, por Sua graça, se originam a participação e a imitação”.
Não poderia ser mais claro… No entanto, ainda estamos aqui debatendo se devemos conceder um oratório para a oração muçulmana, ou compartilhar um iftar com eles. Graças a Deus, o Papa Leão XIV chamou a mesquita em Argel de “um espaço que pertence a Deus, um espaço divino e sagrado”.
Compartilhar tudo o que pudermos com outras religiões, ou outras filosofias, não significa apagar as diferenças e criar… e sincretismo. Por outro lado, esse medo e uma pretensão, ainda que irrealista, de pureza, não podem nos paralisar, nos impedir de nos encontrarmos e compartilharmos… tudo o que temos em comum. Mas, precisamente, para entendermos o que temos em comum, precisamos nos encontrar em liberdade e em verdade.
Lucas nos diz que o que tornou o centurião Cornélio justo não foram suas profissões de fé, ou quem sabe quais especulações pseudoteológicas. Simplesmente “suas orações e suas esmolas”.
Por essa razão, existem verdadeiramente tantos homens e mulheres de boa vontade, dentro e fora do cristianismo; basta irmos ao encontro deles em nossas cidades e nossos povoados…
Pe. Marcos
